Faz dez anos que eu saí de casa.
Meus pais queriam saber tudo: para onde eu ia, com quem, que horas voltava, por que aquele tom de voz, por que aquela camisa, por que aquele silêncio. Eu nunca dei motivo. Nunca. E talvez isso fosse o pior: eu era inocente demais para merecer desconfiança e orgulhoso demais para suportá-la. Aos dezessete, dezoito, comecei a enxergar o mundo vermelho, não o vermelho épico da revolução juvenil, mas um vermelho interno, como se o sangue tivesse subido aos olhos e decidido morar ali. Eu andava pela casa já em estado de defesa, como se cada pergunta fosse uma acusação e cada acusação precisasse de uma sentença. No dia em que saí, eu não estava apenas indo embora. Eu estava fugindo. Com raiva. Com mágoa. Com aquela certeza adolescente e absoluta de que o amor deles era uma forma sofisticada de vigilância.
Meus pais queriam saber tudo: para onde eu ia, com quem, que horas voltava, por que aquele tom de voz, por que aquela camisa, por que aquele silêncio. Eu nunca dei motivo. Nunca. E talvez isso fosse o pior: eu era inocente demais para merecer desconfiança e orgulhoso demais para suportá-la. Aos dezessete, dezoito, comecei a enxergar o mundo vermelho, não o vermelho épico da revolução juvenil, mas um vermelho interno, como se o sangue tivesse subido aos olhos e decidido morar ali. Eu andava pela casa já em estado de defesa, como se cada pergunta fosse uma acusação e cada acusação precisasse de uma sentença. No dia em que saí, eu não estava apenas indo embora. Eu estava fugindo. Com raiva. Com mágoa. Com aquela certeza adolescente e absoluta de que o amor deles era uma forma sofisticada de vigilância.
anônima
15/02/2026 23h25